Fui desafiado a escrever sobre turismo. Parei. Pensei. Recordei. E pus mãos à obra.
Para ser justo, não me vou agarrar a estatísticas nem a números. Vou falar do que sinto e do que vivo como empresário. É o meu ponto de vista. É perceção. É pele. Não é estudo académico.
Havia uma Madeira antes da pandemia. E há uma Madeira depois. Há quem prefira assim e outros não.
Antes, o turismo era quase uma certeza. Aviões compostos, hotéis cheios, cruzeiros a despejar gente na baixa numa manhã de sol. Havia desgaste, claro que havia. Mas existia previsibilidade. O empresário sabia com o que podia contar. O trabalhador organizava a vida em função das épocas altas. O modelo era estável.
E o perfil também.
Era um turismo mais envelhecido. Pessoas com tempo, muitas reformadas, menos ativas fisicamente. Permaneciam mais no hotel, cumpriam rotinas, jantavam cedo, repetiam destinos. Eram fiéis, previsíveis. Durante anos chamámos a isso turismo de qualidade. Hoje, olhando com alguma frieza, percebo que não era qualidade no sentido de dinamismo ou impacto transversal na economia. Era um turismo tranquilo, mais acomodado pela idade do que pela sofisticação da procura.
O verdadeiro turismo de qualidade, no sentido clássico da palavra, aquele que juntava poder económico, elegância e discrição, esse viveu sobretudo nos anos 70 e no início dos anos 80. Estadas longas, consumo elevado, hotéis icónicos, uma aura internacional que fazia da Madeira um refúgio quase exclusivo. Nessa altura os cinco estrelas contavam-se pelos dedos de uma mão. Eu era miúdo, mas sei que era assim.
Depois veio a pandemia. E o silêncio. Tudo parou de um dia para o outro. Travão de mão puxado. Claustro. Medo.
Quando o turismo regressou, regressou diferente. Muito diferente. Tenho a sensação de que fomos dos primeiros a abrir portas. Posso estar enganado, mas este texto é feito de experiência, não de cronologia oficial. E julgo eu ter mais alma assim.
Hoje vemos um visitante mais jovem. Mais digital. Mais impulsivo. Viaja em grupos de amigos, em casal, muitas vezes em regime híbrido de trabalho remoto. Gasta mais em experiências, atividades, gastronomia, festas. Mas passa menos tempo no hotel. O quarto é base logística, não é destino. Dorme, descansa e arranca.
Este novo turista quer trilhos exigentes, quer sunsets com música, quer restaurantes com conceito. Quer partilhar tudo nas redes sociais. É menos previsível. Questiona regras, testa horários, procura limites. Traz energia, mas também ruído. Traz dinamismo, mas também problemas. E, sejamos honestos, não podemos ter tudo.
Isso altera a dinâmica da ilha.
A Madeira está mais viva. Mas também mais exposta. Há mais movimento noturno, maior pressão sobre espaços naturais, mais tensão entre residentes e visitantes. A juventude traz irreverência, e a irreverência nem sempre encaixa numa sociedade habituada a um turismo mais sereno.
Por outro lado, este perfil é economicamente relevante. Investe em experiências, em eventos, em restauração diferenciadora. Procura autenticidade, mas com intensidade. Vive rápido. Decide rápido. Critica rápido.
Antes da pandemia falava-se sobretudo em crescimento. Hoje o desafio é outro. É perceber como integrar esta nova energia sem perder identidade. Como aproveitar a capacidade de consumo e o dinamismo sem permitir que o excesso desgaste aquilo que nos distingue.
O turismo mudou porque o mundo mudou.
O grande teste da Madeira não é voltar a 2019. Isso não volta. O teste é encontrar equilíbrio entre gerações de turistas, entre modelos, entre passado e futuro.
Porque no fim, o turismo não são apenas camas ocupadas. São pessoas. E as pessoas mudaram.
A pergunta é simples, mas não é fácil: conseguimos mudar com elas sem deixar de ser quem somos?
Eu acredito que sim.