Entre preços, políticas e propósito: para onde vai o MICE em Portugal?

Durante a última década, Portugal conquistou protagonismo no turismo MICE.

Rita Nogueira

Durante a última década, Portugal conquistou protagonismo no turismo MICE. Este crescimento não aconteceu por acaso — foi o resultado de uma estratégia consistente, construída pela promoção das entidades regionais de turismo, pelo investimento dos Convention Bureaus e pelo esforço contínuo do setor privado, que acreditou no potencial do país como destino de congressos, incentivos e eventos corporativos. De destino emergente, passámos a referência europeia, reconhecida pela qualidade, profissionalismo e capacidade de entrega. 

Mas quando o palco é conquistado, o desafio muda. Nos últimos anos, o setor habituou-se a uma procura confortável, e com isso surgiu uma tendência menos positiva: uma erosão gradual da flexibilidade. Preços inflacionados, políticas comerciais rígidas, condições contratuais desalinhadas com a realidade do cliente internacional — sem esquecer o aparecimento de modelos tarifários quase “ditatoriais”, que incluem cálculos adicionais como perdas de exploração de spas, parques de estacionamento e outras áreas complementares, complexificando processos e afastando negócio. Tudo isto são sinais de que talvez tenhamos confundido popularidade com inabalabilidade. 

Entretanto, a oferta de hotéis e venues cresceu significativamente, sobretudo em Lisboa e Porto. Porém, a procura pelo destino não acompanhou esta expansão na mesma proporção. E perante este novo equilíbrio, assistimos a respostas díspares do mercado: há unidades a aumentar comissões para captar negócio, enquanto outras exigem depósitos non-refundable de 25% por vezes a um ano ou mais de antecedência. A mesma realidade, estratégias comerciais opostas. O que isto revela? Que o setor ainda está a tentar entender como se posicionar.

E é aqui que reside o verdadeiro desafio. Enquanto cada player olha apenas para a sua ocupação, para a concorrência direta do quarteirão ou para o próximo trimestre, perde-se visão estratégica. Porque o Porto não compete com Lisboa — compete com Barcelona. Lisboa não disputa eventos com Cascais — disputa com Paris, Madrid, Viena, Budapeste, Praga, destinos que há décadas trabalham o segmento MICE com estratégia integrada, alinhamento territorial, narrativa coerente e inteligência financeira. 

Portugal só continuará a ganhar se continuar a comportar-se como destino — e não como um conjunto de unidades independentes. Se o setor for flexível quando o mercado exige flexibilidade. Se ouvir, negociar, ajustar e partilhar. Se entender que captar um evento internacional beneficia toda a cadeia de valor — da hotelaria à restauração, dos PCO’s aos DMC’s, dos venues aos transportes. 
Num contexto global incerto, os clientes corporativos vão escolher destinos que simplifiquem processos, reduzam risco e transmitam confiança. E confiança constrói-se com previsibilidade, transparência, flexibilidade e alinhamento — não com rigidez comercial.

O segmento MICE em Portugal já demonstrou capacidade, talento e ambição. Agora precisa demonstrar maturidade coletiva. No fim, a questão é simples: queremos estar no topo do ranking europeu ou queremos apenas acreditar que já estamos?