Ao longo do meu percurso profissional, fui percebendo que a hotelaria tem uma capacidade extraordinária para aproximar pessoas, territórios e culturas.
Durante muitos anos, falou-se do interior como um território distante dos grandes centros, dos investimentos e das oportunidades. No entanto, quem aqui vive e trabalha sabe que a verdadeira distância não se mede em quilómetros. Mede-se na capacidade de dar a conhecer aquilo que somos e o valor do património que temos para partilhar.
Foi precisamente essa a maior aprendizagem que a hotelaria me proporcionou.
Trabalhar num hotel do interior é muito mais do que receber hóspedes. É acolher pessoas que procuram autenticidade, tranquilidade e uma ligação genuína ao destino que visitam. São viajantes que valorizam a cultura local, a gastronomia, as tradições e as histórias que tornam cada lugar único.
No Boticas Hotel Art & Spa tenho o privilégio de assistir diariamente a esse encontro entre visitantes e território. Ainda hoje gosto de observar a reação de quem chega pela primeira vez ao hotel e descobre uma realidade muitas vezes diferente daquela que imaginava encontrar. A surpresa surge na paisagem, na gastronomia, na hospitalidade das pessoas e na riqueza cultural de uma região que conserva uma identidade muito própria.
É gratificante perceber que uma estadia pode transformar a forma como alguém olha para o interior do país. Muitas vezes, os hóspedes chegam sem conhecer a região e partem com vontade de regressar, de ficar mais tempo e, posteriormente, de a recomendar.
Acredito que a hotelaria desempenha um papel importante nesse processo. Cada reserva representa muito mais do que uma noite de alojamento. Representa experiências vividas dentro do hotel, no restaurante, no bar ou no spa, mas representa também visitas ao comércio local, aos produtores da região, aos espaços culturais e aos recursos turísticos de todo o território envolvente. O impacto estende-se muito para além de Boticas, abrangendo concelhos vizinhos como Chaves, Montalegre e toda a região do Alto Tâmega.
Enquanto profissionais da hotelaria, temos a responsabilidade de ajudar a divulgar estes territórios e dar a conhecer os seus atributos. No caso de Boticas, temos o privilégio de promover uma região que é Património Agrícola Mundial, pelas suas práticas ancestrais ligadas à agricultura e à pastorícia, pelos produtos endógenos de excelência e por um modo de vida que preserva tradições seculares.
Ao mesmo tempo, temos a oportunidade de valorizar uma forte componente cultural e artistica. No Boticas Hotel Art & Spa, a arte faz parte da identidade do projeto desde a sua origem, inspirada na obra do Mestre Nadir Afonso. É uma herança que procuramos integrar na experiência dos hóspedes e que contribui para reforçar a singularidade do destino.
Ao longo dos últimos anos tenho assistido a uma mudança clara no perfil dos viajantes. O turista atual procura cada vez mais experiências autênticas. Quer conhecer pessoas, compreender a cultura local, descobrir produtos de origem e sentir que viveu algo que não poderia encontrar noutro lugar.
Naturalmente, existem desafios. A atração e retenção de talento, a sazonalidade e a distância dos grandes centros continuam a fazer parte da realidade de quem trabalha no interior. Mas também sabemos que a proximidade às comunidades, a capacidade de personalização e a autenticidade da oferta são fatores cada vez mais valorizados.
Acredito que o futuro da hotelaria passará pela valorização da identidade dos destinos e pela capacidade de criar experiências verdadeiramente diferenciadoras. Os hotéis serão cada vez mais agentes ativos na promoção da cultura, da gastronomia, da sustentabilidade e do desenvolvimento local.
É essa visão que procuro aplicar diariamente. Mais do que proporcionar uma boa estadia, procuro contribuir para que cada hóspede leve consigo uma memória positiva do território que o acolheu.
Porque, no final, o verdadeiro sucesso da hotelaria não se mede apenas em taxas de ocupação ou indicadores financeiros. Mede-se também pela capacidade de criar ligações entre pessoas e lugares, gerar valor para as comunidades e despertar nos visitantes a vontade de regressar.
Talvez essa seja a maior lição que o interior me deu. Não é necessário estar numa grande cidade para criar experiências que permanecem na memória de quem nos visita.