O papel do Revenue Manager: gestor de preços ou negociador estratégico? Uma perspectiva 360º

O revenue manager passou a ser, em si próprio, tal como Fernando Pessoa, “múltiplos, como um quarto com inúmeros espelhos”.

Maria Morais dos Santos

Há um tempo (não muito distante), falávamos do perfil do revenue manager como um agente de backoffice, meio tímido e muito pouco social, que passava horas a extrair reports, a analisar a procura das suas unidades, a maximizar a ocupação e a alterar preços. Com o passar do tempo e a evolução da função, passámos a assistir, também, ao cruzamento de dados com outras unidades, com o mercado, com a procura do destino e da área geográfica dentro desse mesmo destino, com as nacionalidades e o potencial de receita global que representam, com as tipologias de quartos, os serviços do hotel, com as ofertas, pacotes, experiências, distribuição, grupos, casamentos, eventos sociais e desportivos, market share e tantos outros. 

Ora, dentro desta evolução, para onde caminhou o revenue manager e onde se posiciona ele? No centro de tudo! Não como único decisor, mas como agregador de todas as variáveis e como negociador com todas as partes envolvidas. O revenue manager deixou de definir preços e passou a assumir-se, cada vez mais, como detentor (não exclusivo) de informação, condensando interesses e objectivos empresariais e não apenas de equipas isoladas. Ou seja, esta função, passou a ser uma das funções mais transversais dentro das organizações, de onde saem informações constantes para tomada de decisões, e para onde voltam a execução e consequência das mesmas, numa verdadeira rotação 360º e capacidade de compreender o negócio na sua totalidade. 

Sabemos que, por vezes, as equipas estão concentradas e focadas apenas na sua área, em maximizá-la e melhorá-la, é certo, mas sem grande definição da forma como os seus interesses individuais se podem cruzar e acrescentar ou dificultar os resultados das restantes áreas e, nem sempre, os objectivos individuais de cada uma delas estão alinhados como um todo porque, quando observados isoladamente, podem conduzir a conclusões incompletas ou desajustadas. 

É então, neste contexto, que o revenue manager atua como negociador interno estratégico, fundamentando decisões baseadas em dados, mediando conflitos baseados em percepções e partilhando uma visão transversal de hipóteses e prioridades que maximizem o valor global da organização, através da avaliação de diferentes cenários e dos seus impactos, construindo um consenso baseado em evidência e números. Falamos de: interpretar comportamento dos clientes, tendências de mercado, estratégias da concorrência, desempenho operacional e, claro, objectivos financeiros. Ao mesmo tempo que acompanha indicadores, necessita compreender o impacto das ações, a capacidade operacional, a satisfação dos clientes, a estratégia comercial e as dinâmicas da distribuição. 
A cada decisão, é preciso avaliar o impacto, muito além da receita (ou falta dela) imediata. 

Além disso, e no caminho totalmente oposto ao de “ratinho de excel” que tinha colado às suas costas anteriormente, o revenue manager passou a ter também um papel de extrema importância fora da organização, estando presente, inúmeras vezes, em reuniões e negociações com Tour Operadores, plataformas de distribuição online e na análise da implementação de ferramentas de trabalho, juntamente com equipa de IT. Em todas estas vertentes que o revenue manager negoceia, quando o faz, não negoceia só tarifas, negoceia o valor que cada segmento, canal e parceiro podem representar para os objectivos e passou, portanto, a falar várias liguagens, tendo em conta não só o contexto em que se encontra, como os agentes da interação, com uma versatilidade quase única, de ligação e união a objectivos comuns. 

Num mercado onde a complexidade e velocidade dos dados cresceram a um ritmo frenético, esta capacidade de agregação e negociação, tornou-se fundamental para o revenue manager que já não gere apenas preços, recolhe informação de múltiplas fontes e transforma-a, facilitando e sustentando decisões, construindo pontes para consensos e sendo um agente de alinhamento estratégico. Ele gere perspectivas, conecta departamentos e antecipa tendências para criar equilíbrio. E é, por isso, que o sucesso da e na função, cada vez mais, dependem da capacidade de influenciar pessoas, de gerir interesses divergentes e transformar uma quantidade ilimitada de informação em decisões que sejam coletivas e que criem, efetivamente, valor. 

O revenue manager passou a ser, em si próprio, tal como Fernando Pessoa, “múltiplos, como um quarto com inúmeros espelhos”. É analista, é negociador, pacifista, consultor, facilitador de tomada de decisões e tantas outras coisas que, silenciosamente, ajudam a que o dia a dia flua de forma mais informada e sustentada. E é também, por isso, que mesmo com todo o desenvolvimento da inteligência artificial, o revenue manager Humano (na forma e conteúdo) continua a ser de fulcral importância, porque os sistemas agregam e processam dados a uma velocidade inigualável mas, comprêende-los e ao seu contexto, gerir todas as relações e equilibrar todos os pontos, olhando para o negócio de forma global, é uma capacidade que (ainda) não é mecânica.

Maria Morais dos Santos
Revenue Management Manager & Team Coordinator
Real Hotels Group

 

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